Uma tarde dialética.
Sentei na sombra, na cadeira de área do meu avô, mas não adiantou. Eu sentia o calor pulsar na minha pele. O tempo seco entrar nas minhas narinas e chegar aos meus pulmões. É como se secasse o pouco de água que ainda resiste comigo. O pouco de vida. Em minha cabeça, ecoavam as palavras de Saramago que desolado se viu a morrer na beira do mar. Lembrei também da terceira margem de Guimarães Rosa, que me parecia flertar comigo nesse samba de loucuras. Eu não entendia muito bem o que me acontecia, se era o barulho dos caminhões e do cortador de grama do meu vizinho que eram tão irritantes quanto qualquer voz que me rodeava ou se era o silêncio que eu carregava dentro de mim mesma, que chegava a ser irônico, visto que, na materialidade dos fatos, minha boca não se fecha por nada. Nasci com um dom estranho de falar de tudo mas de não saber falar de mim. Quando eu quero me entender eu jogo com as palavras e nem assim às vezes dá certo. Tem dias que eu não chego a lugar nenhum e hoje parece que vai ser um desses. Mas talvez a resposta venha disso, Pessoa não dizia "Não sou nada e a partir disso tenho todos os sonhos do mundo" ?? Mas quem me dera ser um nada como ele. Eu sou o nada do nada e não sei dizer nada sobre isso e mesmo assim digo. Pairo na contradição de saber da minha insignificância e de querer sair dela. E o que realmente acontece, o que, na verdade, sempre acontece, é o contrário do que eu previa. Como por exemplo agora, em que as minhas narinas recebem uma brisa fresca, que o meu peito se enche de umidade. É a chuva que chega, de dentro pra fora. Me volta a água da vida. Não é hoje que a terceira margem me levará embora.
Comentários
Postar um comentário