Tremor

Há,às vezes, em mim, um tremor. Sim, um tremor. Meu descontentamento é grande, é forte. Eu estremeço cada vez que percebo que tá dando certo, que dessa vez eu vou ir em frente, mas não, eu não vou e sabe o porquê? É que eu nunca mereci a felicidade, ou pelo menos eu sempre acreditei nisso. Desde que eu nasci, as coisas tem dado errado, uma infância roubada pela inocência perdida, uns colegas maldosos e uma inadaptação às mudanças do meu corpo, o eterno sentimento de diminuição em virtude da beleza do outro, são elementos que me compõem.  Eu sei que eu tô mal, que eu fiquei mal, porque sempre que isso acontece eu não escrevo. Desde que eu conheci a poesia eu me senti parte dela, mas como um pacto do destino ele me disse que eu só iria escrever desventuras e somente depois de me curar delas. Hoje, eu estou aqui, tentando entender desordenadamente, que diabos está me acontecendo, o porquê eu não consigo produzir, o porquê eu não termino as coisas, o porquê têm sido mais forte que eu abandonar tudo, não conseguir continuar, seguir em frente justo quando eu precisava. Eu gritei. Eu chorei. Por três semanas eu surtei. Tudo começou num banco, depois de um fracasso, me pus a chorar e pensei: A vida é uma desgraça mesmo. Eu nunca fui abençoada. Minha mãe me disse tantas vezes pra não dizer essa palavra: D E S G R A Ç A. Ela também me disse para não ir no sítio naquela vez e eu fui, ela me disse pra não confiar em todo mundo e eu confiei. E adivinhem quem tava errada? Eu tenho um pressentimento mas eu não sigo, eu tenho uma convicção mas eu trituro ela. Eu tenho uma dor e aumento ela. Eu tenho um corpo e eu bato nele. Eu tenho um espelho que é feito pra chorar. Eu não me gosto. Eu digo que eu não sei o porquê disso tudo pra ver se eu fico racional. Eu sou tudo menos racional. Eu faço tudo menos sentido. Eu tenho tanta ideia mas tudo se esvai. O tempo não anda comigo, não gosta de mim. Enquanto todo mundo vivia a merda da adolescência como a fase da rebeldia com o mundo, a minha única rebeldia foi comigo mesma.  Até hoje eu não entendo, até hoje é difícil. Era pra eu saber quem eu sou, não era? Era pra eu conseguir te dizer o como eu me vejo, mas isso tudo pra mim são só palavras... E as palavras? Bem.. pode se observar que não são as minhas melhores amigas. Eu queria escrever um texto sucinto, mas eu não consegui. Eu queria ter tido força pra fazer o que eu devia ter feito mas eu não consegui. Eu me enchi de promessas pra não cumprir nenhuma. E tudo que eu evolui em seis meses eu regredi em menos de um. Talvez esse texto esteja sendo escrito numa hora errada, talvez eu tenha chorado na hora errada, ou talvez até mesmo nascido na hora errada. Eu não sei. Ou melhor eu sei. Eu sei tão bem que eu digo que não sei para aliviar o fato de saber. A vida não é uma droga quando não se está encontrando uma solução, ela é uma droga quando tem uma mas você não é capaz de fazê-la. Eu tenho um tremor dentro de mim, sim. Ele tá me avisando que tá na hora de parar tentar e começar a conseguir, nem que for conseguir o fracasso completo. O meu corpo precisa de realização e por isso ele treme.

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