Prece a Drummond:

A vida me tem sido difícil, Carlos. Eu já não tenho um coração tão vasto como o de Raimundo.
A vida me dá tédio e nojo tal como te dava e,  diferentemente de Cabral, eu soube colher deles uma flor. Era uma rosa, Carlos, igualzinho como você disse, uma rosa do povo. Mas esse povo, Carlos, fez dela puro espinho, a minha mão sangrou quando eu a segurei, porque eu a apertei  com força  da desilusão. Eu não vomitei o tédio da cidade, eu o sangrei. Sangrei a dor de ver seus crimes, sangrei a sua ignorância.
Hoje em dia, Carlos, as pessoas não colocam mais fogo, elas incendeiam, incendeiam a esperança. E a polícia, Carlos, já não se ilude com a flor, a polícia joga os espinhos em cima de nós, os gauches dessa vida.
Desde quando eu parei de ser um João, passei a ter meu número, a aparecer, Carlos, eu devo te dizer que eu me arrependo.
Eu preferia ter continuado no meu barracão, vendo a vida passar, o povo ir embora. Era melhor não saber dessa verdade, desse medo.
Medo que eu canto,hoje, também.
Eu canto o medo dessa gente, que, Carlos, acredite se quiser, luta pela repressão.  Já encontramos tantas pedras no meio do caminho, mas está  me parece  ser grande demais.Voltamos a ser primitivos, eu temo, e nesta tarde fúnebre de maio meu coração se tornou  um pouco mais melancólico com isso tudo. 
Assim como você, percebo que a lua, que já desponta nesse céu, misturada com meu vinho-e não com o conhaque, como o teu-  me deixou também, comovida como o diabo.
Das sete faces que eu tinha, já levei bofetada em pelo menos umas seis, ainda me resta uma, bem larga, pra fazer como Cabral e te pedir um conselho, mas não por ligação, porque, enfim, já não dá mais.
Eu só quero deixar-te a minha prece, agonizante e sem pretensão:

Eu não quero morrer afogada, Carlos, na náusea diária do descontentamento. Eu não quero ver, Carlos, tudo se esvaecer.  Eu temo a nossa vida, eu temo essa terra, esse asfalto e até essa flor, que mesmo com tanto ódio, é uma flor, que mesmo com espinhos, ainda tem suas pétalas murchas, vingada por alguns. Me ajude vingá-la também, Carlos, por favor. Eu já não consigo mais sossegar.

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