O karma da escrita

Tal como muitas coisas em minha vida escrever é um impulso. Algo impensado e fora de meu controle.  É como um vômito que você não consegue segurar, uma dor de barriga tremenda, que coloca pra fora a sujeira desgraçada que habita o meu corpo. Não é delicioso, não é lindo. É desconfortável, é feio. Ora pois  se não é a mais pura realidade que ninguém gosta daquilo que escreve? Nunca acha suficiente, não consegue achar bom, tudo isso é porque a escrita reflete  o escuro da alma, aquilo que ninguém vê e nem quem escreve. É pá pum pronto: saiu um monte de palavras que  se conectam entre si e fazem um sentido que às vezes ( quase sempre) não era o que você queria dizer.  Vamos supor que hoje  eu acordasse com uma extrema vontade de escrever sobre o pôr do sol, você tenta e tenta e tenta e retenta não sai uma palavra e sabe o porquê ? É que não é você o dono das palavras são elas que te usam,  você é um escravo. Seu dia poderia estar bom, você no tédio pega um filme para ver e bem no meio dele, você tem que parar e escrever porque algo dentro de você grita até te deixar surdo e  você não consegue fazer mais nada se não atender e for lá e escrever.  É uma verdadeira tortura.  Uma dor sem tamanho e ao mesmo tempo um remédio,  que te cura e permite seguir nos teus afazeres. A escrita é um karma, uma praga. As pessoas que vêem como benção  não  escrevem. Escrever dói, é difícil. É o único lugar onde você não consegue simplesmente ignorar suas paranóias, elas vêm no mais alto timbre e aí de ti se não as esboçar... Não consegue mais dormir, não consegue mais  fazer nada,  fica inquieto, tenta de tudo, contorna, procastina mas no final você sabe que vai ter tudo jogado na sua cara. É isso que é escrever. Não ter pra onde fugir, não ter como enganar, nem tem como  fingir que gosta do que está acontecendo,  porque até  mesmo o descontentamento com esse fado sai de ti de uma hora pra outra, igual  está saindo de mim neste momento e ao mesmo tempo me fazendo perceber que por mais péssimo e dolorido que seja eu não trocaria essa sina por nada. A cada palavra escrita eu sou uma nova pessoa e em um futuro longínquo quando eu não estiver, novamente, me sentindo bem eu sei que lerei minhas palavras e perceberei que saí de um limbo, pode ser que seja pra entrar em um novo, mas nunca no mesmo. Porque escrever dói pois faz crescer e aprender com aquilo que nem você mesmo entendia que tinha, mas que agora tem um pouco mais de noção porque conheceu. Tal como um impulso, escrever vai te levar para algum lugar, seja ele belo ou não tudo depende do seu estado de espírito. É um remédio ruim que você toma sem água mas sara depois,  afinal  como diz  Luiz Carlos Maciel "Tudo é divisão, esquizofrenia, drama"  e  todo ser humano que se preze tem pelo menos um dos 3 problemas e, quando tem os 3, vira um escritor.

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