Prefixo IN
Eu sempre tive o prefixo in carregado na minha existência. Pela minha família eu sempre fui um ser insuficiente. Não era delicada quanto queriam, não era tão bonita quanto queriam, não era tão magra quanto queriam, não era tão inteligente quanto queriam e nem muito menos submissa como queriam. Minha mãe sempre quis que eu fosse igual as outras pessoas da minha idade mas a verdade é que eu corria delas. Minhas amigas tinham os paqueras na sala e eu tinha um dicionário. Todas elas delicadas e eu só faltava ( e só falto) derrubar eu mesma no chão, isso quando esse tipo de coisa não acontecia literalmente ( e as coisas continuam assim). Eu não era boa nos esportes não possuía coordenação, ao invés disso eu matava as aulas de educação física pra escrever poesias, isso até o momento em que sofri bullying quando tentei as expor. As pessoas me taxavam de insossa no colegial. Eu era sem graça, sem nada. Não tinha uma beleza aviltante, além de ser extremamente ingênua pra minha idade. Não entrei na febre da perca da boca virgem, eu era iludida e queria que isso fosse um momento especial com alguém que eu gostasse, mas como eu ironicamente nunca gostava de ninguém e obviamente também não possuía admiradores, demorei mais que as outras pessoas pra ter o ato marcante. O final dessa linda história foi que eu perdi meu bv por livre e espontânea pressão, com uma pessoa que eu não gostava. O tempo foi passando eu ia me distanciando cada vez mais das pessoas. Enquanto minhas amigas erguiam suas listas de beijos, eu erguia uma de livros. As pessoas passavam a me enxergar como uma completa estranha cada vez mais, nunca uma amizade minha durava. Minha mãe chegou a ser chamada na escola por que as pessoas estavam me destratando cada vez mais e eu estava cada vez mais inerte pra tudo isso. Cada vez mais eu era insignificante na vida das pessoas que eu achava que gostavam de mim. Cada vez mais eu estava demorando para perceber, eu me fechei no meu mundinho no decorrer do tempos. Todo mundo ouvia um gênero musical que não me atraia, enquanto eu estava na febre das bandas de rock n roll. Todos babavam nas comédias românticas e eu entrava devagar no universo da ficção científica. Houve a fase em que ler era considerada a atividade mais chata do universo e bem nessa época eu estava lendo obras de machado de Assis ou mergulhando em quadrinhos de super heróis e em desenhos que minha mãe mais tarde me proibira de ver por serem violentos e pertencerem ao universo masculino. Eu queria muito conversar sobre o que eu lia, sobre o que eu via e sobre o que eu ouvia, mas sempre que eu fazia isso as pessoas me olhavam torto. Eu fui percebendo que eu era Inútil na vida das pessoas. Eu era uma peça que sobra no quebra cabeças. Quando eu mudei de colégio pela 2 vez, no ensino médio eu meio que enxerguei uma luz ao encontrar gente como eu. Foi um dos primeiros momentos da vida em que eu senti que eu podia ser alguém, mas simultaneamente havia muita gente que me considerava anormal. Eu era insólita, saltava aos olhos na frente das pessoas mas não ao ponto de acharem isso sobrenatural, até o momento em que eu me decidi por ser professora. Aí eu já era uma aberração pra família que me cultivou pra ser médica ou advogada. Meus pais diziam que estava fora de mim que era um estado de rebeldia ( e eu realmente sempre remei na contra mão). Conforme eu ia me expondo eu me tornava uma pessoa inconformada com a minha falta de expressão. Quando eu expunha minha opinião política claramente fincada nos ideais esquerdistas eu era ( e ainda sou) praticamente taxada de insalubre. Meus parente afastaram meus primos de mim, eu era como se fosse uma aberração. Um não exemplo, a inconveniente da família. Mas tudo isso não me foi de todo ruim, eu aprendi a ser um ser humano individual, imparcial, ímpar. Hoje quase no fim de minha faculdade taxada de insuficiente para atingir o grau da magnitude. Eu me sinto pela primeira vez suficiente, compreendida. Fora na pequenez das coisas, na minha inferiozação dos meus atos, que eu percebi minha grandeza. O que faltava nos olhos de quem me enxergava foi sempre o que eu tinha de melhor. Hoje eu sei agradecer a incompreensão de quem me olha porque é nela que eu me descubro, que eu nasço. É no prefixo que eu me constitui como radical, como palavra e finalmente como um texto e espero que um dia a minha individualidade também possa virar poesia.
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