Um não sei

Eu sou isso. Eu sou um não  sei. Uma soma de ansiedade com desespero. Agonia desenfreada. Uma pessoa sem tempo e espaço definidos, que vive a respirar o eterno futuro inalcançável.  Você  pode julgar  e dizer que  pode ser que isso seja ruim, e talvez seja, mas como quase tudo na  vida, essa cina tem seu lado bom também. Eu me alimento  de sonho, tomo banho de poesia. Eu vivo nessa epifania eterna que é ser e não  saber, ser e querer ser sem saber o quer, pois não sei nem ao menos o que sou. Minha prima me disse uma vez que é evidente que eu não  me encontrei no mundo ainda, e ela pode  estar certa, talvez o meu eu de uns anos atrás  concordaria com ela de fato. Mas  de uns tempos pra cá eu comecei a pensar que eu acho que eu não  caibo na pequenez de uma sórdida definição, ter um lugar pode implicar se reduzir, e eu sou tudo menos uma redução, uma síntese. Eu nem sei fazer um resumo direito, sou prolixa. Vivo com o corpo no terreno e a mente no etéreo, é isso que me salva, que me dá a força da  vitalidade. Não  gosto dessa minha casca, não  gosto de nenhuma casca, eu gosto do interior. É isso que eu vejo.  Eu tenho o mundo todo no brilho fosco dos meus olhos.Eu trabalho com o abstrato.  Eu gosto do imediato  porque o futuro me amedronta. Me amedronta porque é incerto e eu gosto de saber, ainda que eu seja um perfeito não  sei. Assim como eu estou mais uma vez aqui almejando a lucidez inatingível  para um ser humano que não  sabe ter os pés no chão.  Eu sou assim, creci assim, feito Gabriela de Jorge Amado e talvez esse seja o ponto, ou talvez esse seja o meu maior e verdadeiro  defeito. Eu não sei, tô mais pra um talvez, ou não.  Tô igual no início eu sou um não  sei. A vida se repete como nas palavras, uma não  escapa da outra, só me resta aceitar.

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