Uma pequena autobiografia

Minha mãe disse que desde pequena eu dou trabalho, que eu chorava demais, que parecia que eu não queria o mundo. Conforme eu fui crescendo, isso ia aumentando, me disse que eu era rebelde desde cedo, que aos 5 anos eu arrumei uma bolsinha e disse que ia sair de casa pra meter o pé no mundo. Enquanto todas as minhas amigas choravam pra dormir fora de casa, eu chorava pra voltar pra minha. Aprendi a ler aos 3, eu fui precoce. Eu lia de tudo até panfleto sobre os perigos das relações sexuais, se eu chegava no salão de beleza eu queria apenas mexer nas mexinhas das cores de cabelo, encontrar a vermelha pra dizer que um dia meu cabelo ia ser daquela cor, e ele foi. Aos 6 aprendi a falar um travalíngua, aos 7 passei a escrever poesia. E a cada texto que eu lia, era um texto novo meu que surgia. Passei a perceber que o mundo podia não ser tão ruim assim enquanto um livro estivesse nos meus braços e um lápis e um caderno pra eu poder escrevinhar. Mas, não se iluda, se achas que eu passava meus dias apenas a ler e escrever poesias. Eu era uma criança agitada, pegava minha bicicleta e corria pela cidade toda como quem podia atravessar o mundo com os pés nos pedais, no começo da tarde eu adorava andar pela vizinhança coletando as folhas e flores diferentes dos jardins alheios, e eu, depois as desenhava num caderninho, onde eu jurava que um dia ia transformar tudo numa poção mágica, feito a cuca do sítio do pica-pau amarelo ( sim, eu gostava muito dela). Tinha dias que Eu chamava qualquer pessoa pra brincar de pega-pega, pra correr por aí, eu vivia caindo no chão. Me lembro muito de um amigo meu que vivia correndo por aí comigo, que um dia me convidou pra ir no sítio do tio dele, minha mãe não queria que eu fosse, mas mesmo assim eu quis ir e eu fui. Me lembro de todo lugar, do Rio e do balanço, me lembro até do que eu não queria lembrar. Aquele dia foi complicado, o que o tio dele me fez foi errado, mas eu não podia mais falar. Eu não lembrava de quase nada, até hoje eu não me lembro, mas eu sei que ele não podia. Eu depois, disso me senti estranha, me sentia suja, não escrevia mais poesia. De novo tudo parecia escuro, eu havia perdido meu lugar no mundo mais uma vez. Pra piorar minha vó, que me dava abrigo quando eu tinha medo do meu pai me castigar, que me abraçava todo dia, que me fazia bolo, me fazia chá, teve seu lugar no mundo arrancado e levou com ela é melhor parte de mim. Eu já estava me sentindo estranha, agora eu já não tinha quem abraçar, mas meu vô sempre aparecia e me contava suas histórias, e me levava pra passear. O tempo foi passando, eu fui crescendo, a vida era cada mais sem graça, na escola eu descobri a dor que tinha em ser o motivo da graça de alguém. E nesse rancor todo, eu passei a escrever de novo, mas não as coisas bonitas, mas aquilo que me secava por dentro, como se escrevendo eu fosse tirar toda a magoa que eu tinha, e bem,não foi bem assim. Os anos passaram mais e mais e as coisas continuaram iguais e eu me sufocando mais e mais, até que em um belo dia eu decidi que a vida não me fazia sentido, e peguei um vidro cheio daquelas coisas estranhas que a mamãe toma pra dormir. Meu pai percebeu que eu tava saindo do quarto dele com uma cara estranha, foi me vigiar e me pegou no flagra tentando virar o vidro pra dentro de mim. Ele arrancou o vidro da minha mão, chamou a mamãe e tudo mais,eu gritei disse que não queria mais nada aquilo pra me judiar. Entrei dentro do ônibus pra encontrar a minha amiga, fui embora chorando, com pouco dinheiro, odiando ainda mais a vida. Mais dias se passaram, e eu percebi que algo em mim mudou, parece que de tanta pancada eu aprendi a não sentir a dor. E hoje em dia, eu sobrevivi a todo dia, pensando que se nada vale a pena, só me resta aproveitar. Minha mãe tava certa, eu não queria o mundo, Eu sempre achei esse lugar, pequeno demais, eu sempre busquei a eternidade. Eu só demorei pra perceber que essa eternidade, na verdade, morava dentro de mim.

Comentários