sobre o peso de ser

Eu havia parado no tempo, é isso. Não  há uma explicação  lógica  que abranja ou ecoe tudo aquilo que o meu coração  quer gritar. Eu quero tudo, eu quero muito mas eu não  quero nada. Não  sei, não  sei, não  sei! Ah! estou farta de tudo isso. Farta de carregar o peso de ser em minhas costas! Eu que queria tanto me descobrir e  me achei! me encontrei, jogada numa esquina, bêbada e vazia, triste e solitária, apenas mais uma pessoa que fracassou em meio a tantas outras.  Catatônicamente tudo isso me segura, me freia na posição de concha em que eu mesma formo  com o meu corpo, aquele abraço seco, doloroso, que arranca as raízes de um coração  inóspito que evidencia um ser humano apático que oscila entre o rancor e uma epilepsia visceral  de ilusões  desiludidas, desencorajadoras. Eu sou assim. Um bicho feroz, gritantemente sensível e absurdamente frio. Incoerente da ponta do dedão  ao ultimo foi de cabelo. Eu me sinto mal, eu me abraço e sinto no meu abraço o porque eu sou um mal. Eu faço mal pra mim mesma, eu apodreço tudo que toco.  Vivo na margem estreita  que é a falta de lucidez.  Percebo, hoje, mais do que nunca, que ser é pesado, ser dói,  porra! Eu não  sabia disso, eu queria me descobrir, eu me achei e agora eu tô aqui, desolada, pior do que antes.  O mais horrível  disso tudo é que eu sempre estive ali, comigo. Eu era aquilo que a maioria repele, um tom absurdo de excentricidade, um tapa na cara  daquilo que era normal. Eu não  sou um padrão, eu não  sou um conceito. Eu simplesmente sou. Sou ferida que  não  estanca, não  cura. Apenas pulsa e putrefa  dia após  dia até  que  um  dia  essa carcaça se vá e  eu transcenda na forma de um buraco cósmico, de poeira estelar. É isso! Eu só vim contar que eu descobri só hoje que eu sou, e que ser dói muito, porque quase ninguém  sabe o significado disso. Eu, que procurei tantas vezes meu significado, descobri lentamente que ele não  existe. Ser transcende tudo isso. Ser é impalpável, imaterial, intransferível. É uma merda e é uma imensidão. Não  há o que explique e não  há nenhuma razão. Apenas sou e sobrevivo nesse caos.

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